“Agora Besso partiu deste estranho mundo um pouco antes de mim. Isto não significa nada. Pessoas como nós, que acreditam na física, sabem que a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente" — Albert Einstein
O Início
Olha, sinceramente? Que bom que você veio parar aqui.
Não sei em que momento você está lendo isso, ou o que exatamente te trouxe até aqui, mas o fato é que nossos caminhos se cruzaram neste exato fragmento de tempo.
Para você que ainda não me conhece, meu nome é João, mais conhecido como John.
Se passássemos um pelo outro na rua hoje, é bem provável que você passasse reto. Eu não sou o tipo de pessoa que rouba a cena: não sou o mais alto, não chamo atenção pela aparência, se formos falar de intelecto, me considero alguém de inteligência mediana. Tenho problemas de visão e, às vezes, preciso fazer um esforço para ser enxergado no meio de tanto ruído.
Hoje, vivo a rotina clássica de um universitário. Estudo Física na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Sim, estou exatamente naquela fase de quebrar a cabeça para passar nas matérias e terminar um curso que quase todo mundo considera loucura de fazer. E, embora o cansaço de horas intermináveis de estudo seja bem real, o que me mantém de pé é algo que fala muito mais alto do que a exaustão.
Arte, Ciência e Tecnologia
Deixa eu ser honesto sobre o tamanho dessa montanha.
Eu estou na reta final do curso e, sim, ainda não sei exatamente o que vou fazer com a física. Pode soar estranho, mas faz sentido: a física é tão fundamental que escorre por dentro de quase tudo ao nosso redor, e escolher uma única área pra chamar de sua, dentro de um oceano desses, já é um desafio por si só.
E tem o resto. A caminhada acadêmica é fria. É difícil encontrar apoio, difícil achar gente caminhando junto, e por isso muita gente desiste no meio do caminho. Aqui no Brasil, ser físico ainda é uma profissão recente: você estuda feito um louco, durante anos, sabendo que o retorno não é dos mais generosos, porque, por aqui, a ciência quase nunca é a primeira da fila. É uma montanha enorme, e a maior parte da subida a gente faz sozinho.
Você deve estar se perguntando: "se é tão ruim assim, então por que você insiste?"
Porque, no fundo, eu nunca deixei de ser uma criança sonhadora. Desde sempre, a ciência, e a física em especial, foi para mim uma forma de entender a realidade e, ao mesmo tempo, de construir algo capaz de tocar a vida de outra pessoa. Eu via beleza nisso. Me bastava o prazer de enxergar como o mundo funciona no nível mais fundamental e, a partir dali, poder criar. Essa sempre foi a minha maneira de ver o mundo.
E tem um detalhe que talvez explique tudo: eu sempre fui uma pessoa criativa, do tipo que não consegue parar na superfície. Eu gosto de mergulhar até o estado da arte de uma coisa, e gosto, também, da arte que mora escondida dentro desse estado. Esse olhar nunca me abandonou. Ele falava comigo de um jeito primitivo, intuitivo, desde menino. A diferença é que agora eu quero desenvolvê-lo de forma racional e colocá-lo no mundo real.
E desenvolver esse olhar, pra mim, tem um significado bem concreto.
Quero aprender a enxergar a beleza no mundo real e, ao mesmo tempo, explicá-lo, matematicamente, fisicamente, com todo o rigor da técnica. Quero, dentro dessa mesma realidade que observo, perceber os detalhes e a beleza escondida neles, como se a realidade inteira fosse um quadro à minha frente, esperando para ser visto e apreciado. E quero, no fim, poder construir: manipular, recombinar, criar coisas novas a partir de tudo o que fui recolhendo pelo caminho.
Olhar. Entender. Criar. É essa sequência que não me sai da cabeça e, no fundo, é o que sempre disseram as três palavras que dão nome a tudo isto: a arte de ver a beleza, a ciência de entendê-la e a tecnologia de criar a partir dela.
"The Art, The Science and The Tecnology"
"Para desenvolver uma mente completa: Estude a ciência da arte; Estude a arte da ciência. Aprenda a ver. Compreenda que tudo está interligado." — Leonardo da Vinci
Nada disso é um destino. É um processo. Um processo de uma vida inteira de topar desafios, de ter a liberdade de falhar, de entender, de tentar outra vez e de superar, um pouco mais a cada volta. Os desafios do mundo, claro. Mas, no meu caso, sobretudo os da minha própria carreira. E os da minha própria vida.
O medo do amanhã
Só que, logo depois do sonho, sempre vem o medo. E eu preciso ser mais honesto ainda com você sobre ele, porque um sonho contado sem o medo é só propaganda.
É um caminho cativante, mas é também um caminho obscuro. Pouca gente constrói algo por conta própria, e a carreira de um físico é, por natureza, solitária. Muita gente desiste no meio, e quem decide seguir precisa de uma resiliência que eu nem sei se tenho. Sei que vou enfrentar dias tediosos, exaustos, de angústia por estar sozinho, de ter que aprender tudo sozinho, sabendo que nem sempre vou estar nos meus melhores dias. E sei, também, que vão existir pedras no caminho, e que a pior coisa que eu poderia fazer é a de me iludir, achar que elas não estavam ali desde o começo.
Tem ainda a parte que mais me incomoda: desenvolver uma ideia que seja de fato minha. Sair da superficialidade e chegar a algo autêntico, único, capaz de prender de verdade quem chega até ele, não se faz com vontade, se faz com profundidade e com uma dedicação que beira a teimosia. E eu não sei, ainda, se vou dar conta.
Então tenho um horizonte. Terminar a graduação. Começar o ciclo do mestrado. Depois o do doutorado. Tudo isso carregando a incerteza da vida e da minha própria realidade, sem saber se vou conseguir ser, todos os dias, essa pessoa constante e dedicada que o caminho exige. Sem saber se a identidade que eu busco, essa que eu quero que seja autenticamente minha, vai continuar sendo a mesma daqui a alguns anos. Porque ela vai mudar. Disso eu sei.
E no fundo de tudo, embaixo de cada um desses medos, existe a pergunta: será que eu estou pronto pra essa jornada? Será que eu consigo, de verdade, me tornar o João que sempre quis ser?
Passado, Presente e Futuro
Talvez a resposta nunca tenha sido um sim ou um não. Talvez ela não venha de fora, de alguém mais sábio, mais velho, mais pronto, que surge no meio do caminho para me dizer o que fazer. Parando para pensar, eu nunca estive realmente sozinho nessa estrada. Caminham comigo duas versões de mim mesmo e, são elas que me guiam quando a dúvida chega.
Uma vem de trás. É o menino que sonhava com tudo isso muito antes de saber o nome das coisas, que procurava beleza nos detalhes e a curiosidade para entender, sem pedir licença a ninguém. Ele não cobra nada de mim; apenas me lembra, baixinho, de onde tudo começou. É ele que me move.
A outra vem da frente. É o homem que eu ainda não sou, mas que persigo. Aquele que já habita com naturalidade aquilo que hoje ainda me assusta. Ele não me empurra; me chama. É a direção que faz a montanha valer a escalada.
E foi preciso um tempo até eu entender uma coisa. Esse menino lá atrás e esse homem lá na frente parecem dois pontos distantes, um "antes" que ficou para trás e um "depois" que ainda não chegou. Mas essa distância é, no fundo, uma ilusão. Passado, presente e futuro não são três lugares separados pelos quais a gente caminha em ordem: são uma só coisa que insiste, teimosamente, em parecer dividida. O menino que sonhou não ficou para trás. O homem que serei não espera longe. Os dois vivem aqui, neste exato instante em que eu escrevo, em que eu escolho e em que eu construo.
Porque é só o agora que de fato se vive. A gente não mora no passado nem no futuro, mora neste fragmento estreito de tempo, sempre construíndo alguma coisa, sempre superando outra, rumo a um amanhã que, no instante em que chega, já virou de novo o agora.
E o que me move, no fundo, é simples: perseguir a minha melhor versão. Correr mais riscos do que o juízo recomendaria. E, um dia, poder olhar para trás e aproveitar a vista de uma vida bem vivida. Estar verdadeiramente presente num mundo insignificante diante do universo tão grande, carrega dentro desse pequeno intervalo de tempo, uma história e uma realidade inteiramente significativa.
Você está pronto para começar essa jornada comigo?
Bem vindo ao...
